Exame Unificado de Acesso (Línguas e Matemática) às Quatro Instituições
do Ensino Superior de Macau
Exames e Resposta do Ano 2018
2 Entrevista a Gilles Lipovestky
Desde que começou a refletir sobre a hipermodernidade, que temas considera terem adquirido ou perdido relevo?
Não me é difícil responder a esta questão porque aquilo a que chamei de «hipermodernidade» é um modelo teórico para compreender o mundo contemporâneo. Este modelo baseia-se em três lógicas fundamentais: 1) o mercado; 2) a tecnociência; 3) e a cultura individualista democrática. Penso que o universo hipermoderno é aquele que dedicou toda a sua extensão aos três conceitos referidos e que causou a queda dos antigos limites a este universo mercante, técnico e democrático.
No último livro, La Culture Monde, voltei a usar aquela terminologia, mas juntei-lhe outras duas lógicas que estão relacionadas (media e consumo), para poder transmitir com mais precisão os três conceitos. São essas as questões fundamentais que, de momento, estão a reestruturar em profundidade todo o planeta; e, com base nessa reestruturação, penso que o futuro vai caminhar para a unificação do mundo. A unificação planetária não implica necessariamente o desaparecimento das diferenças. Os problemas que se irão levantar estarão forçosamente ligados à questão das sociedades que se desenvolvem e crescem de forma cada vez mais competitiva e técnica. Haverá mais competição e individualismo (é importante reparar que, hoje em dia, a taxa de natalidade do Irão é muito semelhante à da França). O individualismo também está presente nos países fundamentalistas. No entanto, este universo que se estabelece em estruturas semelhantes depende da existência da diferença e do conflito. Desta forma, temos um planeta que está a tornar-se mais unificado e uniformizado pelos mesmos princípios e modos de vida. Por exemplo, os telemóveis: não há nenhum canto do planeta em que as pessoas não os utilizem; a Internet, os filmes que vemos na televisão, a massificação da pílula, tudo isto se disseminou pelo planeta. E, no entanto, os conflitos mantêm-se. Muito provavelmente, surgirão cada vez mais disputas económicas, porque a China, a Índia, o Brasil e a Indonésia são potências em crescimento e vêm destabilizar ainda mais o Ocidente. Teremos ainda de enfrentar esse desafio.
Falemos então de ecrãs. No seu livro não fala do telemóvel. Porquê? Não o considera um elemento importante?
Considero-o um elemento extremamente importante. O telemóvel tornou-se uma espécie de medium universal. É o caso do fenómeno iPhone, por exemplo, um telemóvel
3 que permite aceder à Internet, ouvir música, jogar, tirar fotografias e fazer filmes. Toda esta rede com um só instrumento, um ecrã global. Os telemóveis de hoje já rivalizam com os computadores portáteis, pois os telemóveis são verdadeiramente portáteis e permitem aceder ao e-mail enquanto se caminha pelas ruas. As pessoas comunicam através do ecrã. Este é precisamente uma das faces da cultura-mundo.
Na verdade, o primeiro protótipo da cultura-mundo foi o ecrã. O primeiro ecrã foi o cinema. Em 1895 deu-se o aperfeiçoamento do cinema pelos irmãos Lumière, em Paris, e pouco tempo depois surgiu a indústria do cinema. Esta, e em particular a indústria do cinema americano, criou filmes que foram exportados para o mundo inteiro. As imagens de Hollywood rapidamente se tornaram conhecidas por todo o planeta. As massas começaram a sonhar com as stars e com todo o universo que as envolvia. O cinema tornou-se, assim, um medium a nível planetário.
Seguiu-se o segundo grande ecrã: a televisão. A televisão era uma espécie de cinema em casa. A informação, a imagem, o mundo, tudo passou a estar em permanência na nossa habitação. Agora, encontramo-nos num terceiro patamar, num terceiro grau: o ecrã digital, a Internet. A Internet altera de forma fundamental esta lógica de ecrã porque, com o cinema e com a televisão, o espectador tem um lugar passivo: vê e ouve, mas não pode fazer mais nada. Hoje em dia, o ecrã digital apresenta-nos bastante mais oferta, possibilidades de canais variados; podemos gravar as emissões e ser ativos: escrever em blogues, enviar e-mails, participar em redes sociais. Posto de outra forma, de hoje em diante, o universo do ecrã global é um universo de interatividade, que não é de todo como o universo do cinema, de passividade total. A dinâmica alterou-se radicalmente. Por um lado, este fenómeno acelera a individualização; por outro, reduz as distâncias. Através deste ecrã global, podemos aceder às informações de imediato. Temos, portanto, um universo do ecrã que contribui para a individualização e para a conquista de uma consciência planetária.
Este era um primeiro ponto. O segundo, que procurei desenvolver no livro, fala do seguinte paradoxo: durante muito tempo, o cinema foi o ecrã absoluto (primeiro ecrã moderno) e dominou a cultura; era o lazer número um das massas. Nos anos de 1930, 1940 e 1950, ir ao cinema era formidável, era um ritual. Hoje em dia, tem diversos concorrentes (outros lazeres, como o desporto, a música e a Internet), que em muito afetaram os níveis de audiência. Os europeus vão entre duas e três vezes por ano ao cinema, em média, mas vêem imensos filmes em casa. O cinema perdeu o seu lugar e o seu estatuto. Era o centro da cultura de massas, não da cultura universitária, por exemplo, mas para a cultura de massas era o mais importante. Isso já não acontece.
4 dessa cultura de massas, é aí que ele triunfa. E triunfa porque se soube exportar, bem como à lógica do hiperespectáculo, do divertimento e das stars, para os outros ecrãs. Se olharmos para esta lógica tripartida, verificamos que se encontra presente nos outros ecrãs. Por exemplo, a publicidade transformou-se em função do cinema, importou o modelo deste: existem anúncios cada vez mais criativos, ricos e espetaculares. Tal como o cinema. Antes, existiam anúncios simples e repetitivos. Hoje, são verdadeiras curtas-metragens, filmes de 20 ou 25 segundos. Também assistimos às transmissões de grandes acontecimentos desportivos como assistimos a um filme, com os grandes planos, com as diferentes perspetivas e com todas estas animações permanentes que alteram o universo da televisão.
Os jogos de vídeo integraram, em grande medida, os aspetos de criação de cenários dos filmes. O mesmo sucedeu com os videoclipes, vídeos que acompanham as músicas. Se formos ao Youtube procurar qualquer canção, aparece-nos de imediato um pequeno filme com toda uma mise-en-scène que corresponde aos modelos do cinema. E poderíamos continuar com esta análise para o mundo da política, da televisão pública... Em todas as áreas, a lógica do espetáculo conquistou os universos dos ecrãs e a cultura em geral. Podemos concluir, portanto, e esta é a principal tese do livro, que o cinema mudou a nossa forma de olhar o mundo. O cinema tem uma função antropológica e social, e é isso que o livro procura analisar. O cinema não é só uma fábrica de sonhos: mudou efetivamente o nosso modo de olhar o mundo e de o apreender. De tal forma que, agora, quando andamos pelas cidades ou apanhamos um avião, temos connosco as ideias e as imagens que o cinema nos forneceu. E, acima de tudo, nós desejamos viver como num filme. Hoje em dia, os centros das cidades são «decorados» como se fossem cenários cinematográficos; não é possível irmos a um restaurante sem ouvirmos música; temos música por todo o lado, porque nos filmes há música por todo o lado. O cinema levou a que se criasse a vida como se fosse um filme. Nós queremos viver como nos filmes.
E com a divulgação de dispositivos como o iPad da Apple, pensa que o livro irá perder a sua importância?
Não, o livro não. O livro em papel, talvez. Os livros digitais são livros. Portanto, penso que isso não será um problema... Sê-lo-á para as editoras, que têm de encontrar um modelo económico que funcione face a esta nova realidade. Mas não considero que o livro esteja ameaçado, até porque nunca se publicaram tantos como atualmente. Em Portugal, são editados dez mil livros por ano; em França, entre cinquenta mil e sessenta mil; nos EUA, publicam-se cerca de cem mil livros por ano. Estamos numa fase de
5 sobreabundância de livros e não de escassez. Portanto, com o aparecimento do iPad, a única diferença é que estes passarão para o formato digital.
Coloca-se, no entanto, a seguinte questão: será que o ecrã irá fazer surgir uma nova relação com o livro? Isso, penso que sim, muito provavelmente. Vemos isso nos estudantes, com a lógica do copy/paste... A relação irá alterar-se, mas penso que a leitura se irá manter. Aliás, acho curiosa a quantidade de gente que vejo a ler quando ando de metro em Paris. Mas é preciso ver o que as pessoas lêem. Penso que os jornais estão mais ameaçados do que os livros. Isto porque, hoje em dia, com o ecrã, temos acesso a todas as informações de forma imediata e gratuita e, assim, as pessoas já não querem comprar jornais. Nos EUA, dois grandes jornais faliram. Estes problemas existem, estamos num momento de revolução mental que irá conduzir a várias mudanças. Por exemplo, assim que a televisão apareceu, o cinema entrou numa crise terrível. Mas o cinema não está morto! Nunca se fizeram tantos filmes como agora. O modelo mudou, vendem-se filmes em DVD e noutros formatos, mas a indústria do cinema tem um peso bastante considerável. A dimensão cultural do cinema e de tudo o que é visual tornou-se enorme. O audiovisual ocupa o primeiro lugar das exportações dos EUA, ultrapassando as exportações de aeronáutica. As indústrias culturais já não são um nicho. (...)
Fonte: Carla Ganito e Ana Fabíola Maurício, Comunicação & Cultura, nº 9, 2010, pp. 155-163.
A. Após a leitura do texto responda às questões de compreensão. (35%)
1. Dê um título alternativo ao texto e justifique-o a partir da temática central que nele é tratada. (5%) ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________
6 2. Como é que Gilles Lipovestky se refere ao conceito de ‘hipermodernidade’? Justifique a
sua resposta indicando duas frases do texto. (6%)
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3. O que é que o autor pensa sobre a uniformização e a unificação das diferentes culturas do mundo? (6%) __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________
7 4. Qual é a posição do autor relativamente à importância das novas tecnologias de
informação e de comunicação (TIC)? (6%)
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5. Indique os momentos marcantes que o autor refere a propósito da importância dos ecrãs na vida quotidiana. (6%) __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________
8 6. Qual é a opinião do autor em relação ao futuro dos livros e do mercado editorial? (6%) __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________
B1. Reescreva as seguintes frases (sublinhadas no texto) sem alterar o seu sentido (15%): 1. “Apesar de o cinema já não ser o coração, o centro dessa cultura de massas, é aí que ele
triunfa.” (7%) __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________
9 2. “Será que o ecrã irá fazer surgir uma nova relação com o livro?” (8%)
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B2. Transforme as seguintes frases (sublinhadas no texto). (15%)
1. Reescreva a frase com “É possível” “Os jogos de vídeo integraram, em grande medida,
os aspetos de criação de cenários dos filmes”. (7%)
É possível ___________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________
2. Reescreva a frase com “Para que” “para poder transmitir com mais precisão os três
conceitos”. (8%) Para que ____________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________
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C. Redija um texto de carácter argumentativo com base na seguinte frase retirada do texto. (400 – 600 palavras) (35%)
“O cinema não é só uma fábrica de sonhos: mudou efetivamente o nosso modo de olhar o mundo e de o apreender”.
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Resposta
A.
1. Dê um título alternativo ao texto e justifique-o a partir da temática central que nele é tratada. Tecnologias de informação e comunicação e unificação planetária. Na perspetiva do autor, o mundo está cada vez mais unificado e uniformizado, uma vez que as novas tecnologias, nomeadamente os telemóveis, a Internet e o cinema fazem parte dos modos de vida do planeta.
2. Como é que Gilles Lipovestky se refere ao conceito de ‘hipermodernidade’? Justifique a sua resposta indicando duas frases do texto.
Concebendo-a como uma forma que nos permite compreender o mundo actual – “hipermodernidade” é um modelo teórico para compreender o mundo contemporâneo”. Para a constituição e caracterização deste modelo entram os aspectos sociais do mundo moderno, o funcionamento do mercado, o desenvolvimento da ciência aliada à tecnologia, a cultura democrática, o modo de consumo e a utilização das novas tecnologias – “Este modelo baseia-se em três lógicas fundamentais: 1) o mercado; 2) a tecnociência; 3) e a cultura individualista democrática. […] juntei-lhe outras duas lógicas que estão relacionadas (consumo media)”.
3. O que é que o autor pensa sobre a uniformização e a unificação das diferentes culturas do mundo?
O autor acha que o futuro da humanidade vai no sentido da uniformização e da unificação, uma vez que os modos de vida, como a utilização dos telemóveis, a internet são universais. Nas sociedades modernas há cada vez mais competição e individualismo, acentuando ainda o autor que esta uniformização não eliminará as diferenças.
4. Qual é a posição do autor relativamente à importância das novas tecnologias de informação e de comunicação (TIC)?
O autor acha que as novas tecnologias contribuem decisivamente para a uniformização planetária, com modos de vida semelhantes, com a disseminação dos telemóveis e da internet, tornando-se o centro da cultura de massas e criando uma maior e forte proximidade.
5. Indique os momentos marcantes que o autor refere a propósito da importância dos ecrãs na vida quotidiana.
O primeiro ecrã foi o cinema que mudou a nossa forma de olhar o mundo, criando uma indústria que universalizou as imagens e as stars, originando hábitos sociais como o ritual das sessões de cinema. Um segundo momento foi o surgimento da televisão que trouxe a imagem e a informação para o espaço doméstico. Um terceiro momento foi o
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aparecimento e utilização da internet ou ecrã digital, com mais ofertas, possibilitando ao utilizador maior interactividade e um papel mais ativo ao participar nas redes sociais, escrevendo blogues, ao mesmo tempo que encurta distâncias.
6. Qual é a opinião do autor em relação ao futuro dos livros e do mercado editorial?
Considera que o livro não está ameaçado pelas novas tecnologias, pois o número de publicações tem aumentado sensivelmente em muitos países. A aproximação às novas tecnologias, surgindo mesmo os livros digitais, poderá criar uma nova relação com o livro e obrigará as editoras a adaptarem-se a esta nova realidade e às diferentes formas de difusão do livro.
B1.
1. “Apesar de o cinema já não ser o coração, o centro dessa cultura de massas, é aí que ele triunfa.”
Embora o cinema já não seja o coração, o centro dessa cultura de massas, é aí que ele triunfa.
2. “Será que o ecrã irá fazer surgir uma nova relação com o livro?” O ecrã irá fazer surgir uma nova relação com o livro?
B2.
1. Reescreva a frase com “É possível” “Os jogos de vídeo integraram, em grande medida, os aspetos de criação de cenários dos filmes”
É possível os jogos de vídeo terem integrado, em grande medida, os aspetos de criação de cenários dos filmes
2. Reescreva a frase com “Para que” “para poder transmitir com mais precisão os três conceitos”.